Conforme alerta o Doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, a doença de Behçet é uma das condições autoimunes mais frequentemente subdiagnosticadas na terceira idade, não porque seja rara, mas porque suas manifestações são tão variadas e aparentemente desconexas que raramente levantam suspeita de uma única condição subjacente antes que múltiplos especialistas tenham sido consultados.
O idoso que tem úlceras na boca que não cicatrizam, lesões nos olhos que causam visão turva e feridas na pele que aparecem e desaparecem sem causa identificável provavelmente já consultou dentista, oftalmologista e dermatologista separadamente, sem que nenhum deles tenha conectado os pontos.
Compreenda os desafios da doença de Behçet na terceira idade: saiba por que o diagnóstico costuma atrasar e o que fazer quando o quadro é finalmente identificado.
O que é a doença de Behçet e como ela afeta o organismo?
A doença de Behçet é uma vasculite sistêmica, inflamação dos vasos sanguíneos, de causa ainda não completamente compreendida, que pode afetar vasos de qualquer tamanho em praticamente qualquer órgão do corpo. Sua tríade clássica de manifestações inclui úlceras aftosas recorrentes na boca, úlceras genitais e inflamação ocular, mas a doença pode afetar também articulações, sistema nervoso central, trato gastrointestinal e grandes vasos, produzindo uma variedade de sintomas que torna o diagnóstico clínico particularmente desafiador.
Yuri Silva Portela esclarece que a doença de Behçet é mais prevalente em populações ao longo da antiga Rota da Seda, incluindo Turquia, Irã, Japão e China, mas ocorre em todas as populações e com frequência crescentemente reconhecida no Brasil. No idoso, ela pode se manifestar pela primeira vez na terceira idade ou representar a persistência de uma condição que nunca foi corretamente diagnosticada nas décadas anteriores, quando suas manifestações eram atribuídas a outras causas mais comuns.
Por que o diagnóstico demora tanto e o que atrasa o reconhecimento?
O diagnóstico da doença de Behçet é clínico, baseado em critérios internacionais que exigem a presença de combinações específicas de manifestações ao longo do tempo. Não existe exame de sangue ou de imagem que confirme a doença de forma definitiva, o que significa que o diagnóstico depende inteiramente da capacidade do médico de reconhecer o padrão clínico característico em um paciente cujas manifestações frequentemente aparecem em momentos diferentes e são tratadas por especialistas diferentes sem comunicação entre si.

Sob o olhar clínico de Yuri Silva Portela, o maior obstáculo ao diagnóstico precoce da doença de Behçet no idoso é a tendência de cada especialista tratar sua manifestação isoladamente: o dentista trata as aftas com antissépticos locais, o oftalmologista trata a uveíte com corticoides tópicos e o dermatologista trata as lesões cutâneas com cremes, sem que nenhum deles pense em investigar se há uma condição sistêmica subjacente que explique todas essas manifestações simultaneamente.
Como as manifestações da doença de Behçet se apresentam no idoso?
No idoso, a doença de Behçet frequentemente tem apresentação mais atípica do que em adultos jovens. As úlceras orais, presentes em praticamente todos os casos, podem ser confundidas com aftas comuns ou com lesões por prótese dentária mal adaptada. Já a inflamação ocular, que pode produzir desde vermelhidão e dor até perda visual significativa, é frequentemente atribuída a outras causas mais comuns em idosos, como glaucoma ou degeneração macular. As manifestações articulares, por sua vez, presentes em cerca de 50% dos casos, podem ser confundidas com artrose ou artrite reumatoide.
Em linha com o que expõe Yuri Silva Portela, o envolvimento do sistema nervoso central, presente em uma parcela dos pacientes com Behçet, produz sintomas como cefaleia intensa, alterações cognitivas e déficits neurológicos focais que podem ser confundidos com AVC ou com demência vascular, levando a investigações extensas e tratamentos inadequados enquanto a doença de base permanece sem diagnóstico.
Tratamento e o que o idoso pode esperar após o diagnóstico
O tratamento da doença de Behçet é individualizado de acordo com os órgãos afetados e com a gravidade das manifestações. Colchicina para as úlceras orais e genitais, corticosteroides para as manifestações oculares e articulares, e imunossupressores como azatioprina ou ciclosporina para casos mais graves são as principais opções terapêuticas disponíveis. Agentes biológicos como infliximabe e adalimumabe têm mostrado eficácia crescente em casos refratários ao tratamento convencional.
Yuri Silva Portela pontua que o diagnóstico da doença de Behçet, embora tardio na maioria dos casos, representa um momento de virada no cuidado do idoso que havia sido tratado por anos com abordagens fragmentadas e insuficientes. Quando todas as manifestações são finalmente reconhecidas como parte de uma única condição e tratadas de forma integrada, a qualidade de vida melhora de uma forma que frequentemente surpreende tanto o paciente quanto a família, que havia se acostumado com um sofrimento que parecia sem explicação e sem solução.
